Author Archives: everaux

Confissão

Não amei bastante meu semelhante,
não catei o verme nem curei a sarna.
Só proferi algumas palavras,
melodiosas, tarde , ao voltar da festa.

Dei sem dar e beijei sem beijo.
(Cego é talvez quem esconde os olhos
embaixo do catre.) E na meia-luz
tesouros fanam-se, os mais excelentes.

Do que restou, como compor um homem
e tudo o que ele implica de suave,
de concordâncias vegetais, múrmurios
de riso, entrega, amor e piedade?

Não amei bastante sequer a mim mesmo,
contudo próximo. Não amei ninguém.
Salvo aquele pássaro -vinha azul e doido-
que se esfacelou na asa do avião.

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Boitempo

Entardece na roça
de modo diferente.

A sombra vem nos cascos,
no mugido da vaca
separada da cria.

O gado é que anoitece
e na luz que a vidraça
da casa fazendeira
derrama no curral
surge multiplicada
sua estátua de sal,
escultura da noite.

Os chifres delimitam
o sono privativo
de cada rês e tecem
de curva em curva a ilha
do sono universal.

No gado é que dormimos
e nele que acordamos.

Amanhece na roça
de modo diferente.

A luz chega no leite,
morno esguicho das tetas
e o dia é um pasto azul
que o gado reconquista.

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